sábado, 7 de agosto de 2010

Charalina

Era uma senhora chamada Josefina, desde menina tinha mania de botar nome em todas as coisas.

Bastava olhar um caldeirão para chamá-lo de Bastião.

Olhava para uma panela e chamava de Amélia.

E, por essa estranha mania, dona Josefina tinha uma chaleira que se chamava Charalina.

Coisas e nomes loucos de dona Josefina. É claro!

Pois a panela que se chamava Amélia, só servia para fazer arroz e logo depois era lavada e guardada, enquanto a esforçada Charalina quase abria o bico de tanto trabalhar, do fogo de lá para o fogo de cá.

Fervia a água para a mulher fazer o café, cozia o ovo pro menino mais novo, fervia, depois, água pro arroz.

Sem atraso fervia água pra lavar os pratos.

Também, mais uma vez, fervia água pro chá das três, e pro Zé, prá não dar chulé, fervia água pra lavar o pé.

Mas, a Charalina, que devia se chamar divina, não abria o bico e só chiava quando fervia.

Até que um dia, quando ninguém esperava, surgiu um buraquinho, no fundo da Charalina, por onde a água vazava.

E a dona Josefina gritou, chiou, ferveu, falou mal e jogou a velha chaleira no fundo do quintal.

A Charalina, contudo, que deveria ficar uma fera, só ficou chorosa, próxima a um monte de terra:

__ Eu trabalhei todos os dias da minha vida, merecia melhor aposentadoria!

No outro dia, depois da janta, começou uma chuva forte... e choveu a noite inteira.

Com a chuva, que era tanta, a terra toda do monte escorreu para a chaleira, que fora jogada sem tampa.

Depois de alguns dias, a Charalina sentia que, na sua barriga, alguma coisa acontecia, e ficou ainda mais triste com o aquele novo fato...

Estava medrosa e muito temia que sua barriga, que antes fervia, agora fosse uma casa de sapo.

E a vida da Charalina tornou-se um pesadelo cheio de horror, até que, numa bela manhã, de sol muito bonito, na sua barriga uma semente germinou.

Tinha um talito tão verde e bonito, só vendo que amor!

Depois, duas folhinhas verdes e rapidamente, sem esperar a primavera, foi logo dando uma flor.

Quando dona Josefina saiu para tomar banho de sol na varanda do fundo da casa, olhou para a Charalina e exclamou:

Meu Deus, que amor!

Correndo, dona Josefina apanhou a Charalina e, como se pedisse perdão, limpou-lhe as paredes de fora, regou a flor sem demora e levou as duas para enfeitarem a mesa da sala.

Hoje, Charalina está feliz e encantada com a nova situação.

Anda até namorando um vaso da casa que faz parte da decoração.


Nelson Albissú

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